A QUEM JOGA PARA A PLATÉIA: POR QUE NÃO TE CALAS?

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A QUEM JOGA PARA A PLATÉIA: POR QUE NÃO TE CALAS?


(*) Amauri Meireles
 
Admiro publicações, sobre matérias de cunho político-social, em que autores enfatizam aspectos técnicos sem o oportunismo de priorizar e promover trechos de sua cartilha ideológica. 
Na edição de 23 fevereiro p.p. do jornal O TEMPO, a advogada e cientista política, Sandra Starling, nos brindou com seu excelente “Jogando para a platéia”. Dito procedimento, semelhante ao “jogar para a torcida”, consiste em fazer pronunciamentos “enxuga-gelo” ou “enrola-enrola”, isto é, cuja contribuição social é nula, mas, como projeto pessoal, induzem incautos a aumentar dividendos de politiqueiros, através jogo de cena, em momentos de comoção. Objetiva fazer média com o eleitor e o fim é o voto.
            Na mesma edição, várias páginas abordam posicionamentos subseqüentes aos lamentáveis acontecimentos no aglomerado da Serra. Numa síntese, em razão de cobrança da comunidade, de isenção da Corregedoria da PM, de acompanhamento pelo Ministério Público Estadual e OAB-MG e de exigência de transparência do governador “se for comprovado que aconteceu, de fato, um desmando, nós temos de punir as pessoas”. Frise-se, se e quando for comprovada culpa ou dolo, punir exemplarmente.
            Entretanto, pseudopretores, jogando para a platéia, antecipando-se à apuração, já sentenciam a necessidade de extinção do Batalhão ROTAM. Se médicos fossem, uma excrescência: solucionariam casos de dor de cabeça, cortando a cabeça dos pacientes. Ora, ninguém fala em fechar Legislativos por causa de eventuais escândalos. É possível, em dezenas de milhares de intervenções, surgirem casos de uso indevido da força, arbitrariedades e, até mesmo, de covardia. Porém, diferentemente dessa balela de corporativismo, a PM sempre apura e pune exemplarmente eventuais desvios de conduta. E, no geral, há muitíssimos mais êxitos a se comemorar do que raríssimos deslizes a se condenar. Que, insiste-se, são e devem ser sempre punidos. Outros, até bem intencionados, entendem que melhor seria incrementar o GEPAR (Grupo Especializado de Policiamento em Áreas de Risco) substituindo a ROTAM. Contudo, apresentam essa proposta por desconhecerem princípios táticos que embasam o policiamento ostensivo, com destaque para o recobrimento sucessivo, visando a inibir vontades e obstaculizar oportunidades de delinqüir. E, no ápice dessa pirâmide, estão as ROTAMs.
            Parlamentares de origem castrense têm autoridade para falar, pois são do ramo, e poderiam esclarecer, a seus colegas demagogos, que integrantes da ROTAM, mais que quaisquer outros, enfrentam o perigo, desafiam a morte, colocam em risco a própria vida para defender a sociedade, em qualquer ocorrência a que são convocados a atuar. S. Exas. sabem dos extraordinários serviços prestados à comunidade pelos corajosos, destemidos integrantes do batalhão que tem a “simples” missão de contenção da “criminalidade da pesada”. Desde que foi criada, há quase trinta anos, no batalhão de choque, sua missão principal era conter a incitação do grevismo ilegal (de quem “não punha a cara”, ficava nas cercanias e corria, de boina-vasca e pastinha) e garantir manifestações classistas legais de Roberto Carvalho, Fernando Cabral, Carceroni, Dulci, Carlão, Mares Guia e outros. Com o emprego da “parlamentação”, os confrontos em movimentos de massa se reduziram a próximo de zero e as ROTAMs se especializaram e se concentraram no trabalho de enfrentar e nos livrar da criminalidade violenta em BH.                 
            Prudente e sensato foi o presidente da OAB-MG: “Queremos que o Estado participe mais das atividades dentro dos aglomerados”. É isso: a ausência e a distopia estatal fazem vicejar uma subcultura peculiar, de valores e regras mais fortes que as sociais, ensejando surgimento de criminosos violentos, ardilosos, frios, que desafiam o próprio Estado e intranqüilizam nossas famílias. Quem há de nos socorrer? As ROTAMs, temidas pelos marginais e destemidas para as pessoas de bem.
            É hora de colocar a carapuça e abandonar a hipocrisia: as ROTAMs são nossa proteção, até que essa vulnerabilidade sociopolítica seja corrigida. Desculpando-me pela expressão, acabar com a ROTAM é “cuspir pra cima”.
            De passagem, o Conselho Estadual de Defesa Social não vai sair do papel?
 
(*) Coronel da Reserva da PMMG